dez
2024
A Fazenda das promessas e o olho que tudo vê

Sede do TJ-MA…
Em um pedaço de terras, até então esquecido, do Reino dos Mares Grandes, havia uma terra fértil conhecida como a Fazenda das Promessas, a Fazenda era rodeada por lindos rios e cachoeiras o que tornava a sua beleza única. Três famílias de andorinhas — os Bicudos, os Pinheiros e os Jatobás — ouviram falar das maravilhas e riquezas desse lugar e decidiram vender os campos gelados do Sul para investir tudo o que tinham nessas terras maravilhosas, que lhes foram oferecidas por um grupo de raposas lideradas por Hades, o Astuto.
As raposas, sempre sorrindo e cheias de boas palavras, mostraram os mapas coloridos e os contratos brilhantes que compunham a documentação da Fazenda das Promessas. “Estas terras são únicas, estão livres de qualquer problema e podem ser suas“, garantiram.
Hades era uma raposa tão astuta que convenceu as três famílias de andorinhas que, embora as terras que ele, e seu grupo, vendia eram mais valiosas, receberia como pagamento os campos gélidos do Sul, pelas terras férteis das Fazendas dos Pássaros. Iludidas, as andorinhas acreditaram que estavam tendo a maior a sorte da vida e, por isso, entregaram seus ninhos antigos a Hades, empacotaram suas coisas e voaram para a Fazenda das Promessas.
Os Bicudos compraram mil campos dourados, os Pinheiros adquiriram quinhentos vales verdejantes, e os Jatobás, liderados por uma andorinha fêmea, pagaram por mil e cem colinas floridas. Os mapas eram impecáveis, e os contratos, ornamentados folhas douradas continham promessa de legalidade. Entusiasmadas, as andorinhas voaram para suas novas moradas.
Ao chegarem lá, porém, descobriram a verdade. As terras estavam cheias de outros animais que as habitavam e que, dedicados, cuidavam delas há gerações. Além disso, os mapas tinham armadilhas: os campos dos Bicudos sobrepunham-se às colinas dos Jatobás, criando disputas internas entre as famílias de andorinhas migratórias. Logo, as andorinhas caíram em si e perceberam que haviam sido enganadas, mas as raposas, que haviam prometido honestidade, riram de longe enquanto sumiam nas florestas escuras.
As famílias de andorinhas viram-se em completa miséria e, tristes, adoeceram. Antes que definhassem por completo, foram acolhidas por um grupo de corujas defensoras, que compadecendo-se da situação das andorinhas, decidiram cuidar, alimentar e lhes dar outros ninhos provisórios para que se abrigassem, com seus filhotes, protegendo-se da natureza e dos animais ferozes.
Com o auxílio das corujas defensoras, as andorinhas levaram as suas queixas ao Conselho das Árvores Justas. Que era uma entidade que prometia justiça para todos e era liderado pelas corujas julgadoras, que tinham como responsabilidade aplicar as leis, do Código Legal da Floresta, com total imparcialidade.
O Conselho das Árvores Justas era formado por três classes de corujas: defensoras, julgadoras e as fiscalizadoras que, também, acumulavam a função de acusadoras.
Depois de anos de disputas, o Conselho finalmente deu razão às famílias de andorinhas. “As raposas nunca foram donas da Fazenda das Promessas e seus mapas e contratos eram mentirosos! Elas devem responder por suas ações e indenizar a perda das andorinhas”, decretou o Conselho.
“Ufa! Graças a Deus agora teremos justiça! O Conselho das Arvores Justas vai mandar aplicar imediatamente a sua decisão e, após anos de sofrimento e miséria, após termos nossas vidas devastadas pelas raposas, podemos ter a felicidade de passar as festividades de final de ano da floresta com fartura em nossas mesas”, pensaram as andorinhas. Ledo engano!
Logo as andorinhas descobriram que algumas corujas julgadoras e defensoras, na verdade, não eram corujas, mas corvos que, usando disfarces de corujas, enganavam a toda a sociedade da floresta e estavam infiltrados no Conselho das Árvores Justas.
A sociedade dos corvos é um grupo de pássaros que, mediante disfarce, camufla-se em todos os órgãos da floresta, podendo ocupar todas as posições possíveis e com diferentes propósitos. Sabendo disso, o líder das raposas, Hades, o astuto, sentindo que seria obrigado a devolver tudo que tomou das andorinhas, visitou o vale dos corvos e lhe foi apresentado um corvo conhecido como “o negociador”. Esse corvo negociador atua no Conselho das Árvores Justas sob o disfarce de coruja defensora e, também, era um dos líderes do grupo dos corvos disfarçados entre os grupos das corujas defensoras.
Assim, enquanto as andorinhas aguardavam a indenização, descobriram que as raposas, protegidas pelos corvos que, por sua vez, mandavam em algumas corujas julgadoras, haviam enterrado seus tesouros em buracos profundos, na certeza que sempre protegidas por corvos corruptos e astutos.
Algumas riquezas foram encontradas escondidas nos ninhos de suas fêmeas das raposas, inclusive, no ninho da fêmea da raposa Hades. Mas quando as andorinhas pediram para receber o que lhes era devido, enfrentaram novos obstáculos.
Os tesouros foram escondidos por alguém e, em troca, receberam a seguinte proposta: “Pagaremos, mas só se vocês nos derem uma parte… digamos, 1,5 milhão de sementes douradas”, sibilou um filhote de um corvo que usa o disfarce de coruja julgadora. Este filhote de corvo atua sob o disfarce de coruja defensora e, recentemente, as andorinhas descobriram ser ele um dos responsáveis por esconder os tesouros apreendidos no ninho das fêmeas das raposas.
As andorinhas ficaram horrorizadas e decidiram procurar o Olho que Tudo Vê, o grande guardião das leis, que observava tudo do alto das montanhas, e que era a entidade responsável por garantir a efetividade da justiça e repreender a corrupção das corujas dentro do Conselho das Árvores Justas. As andorinhas sabiam que o Olho era poderoso, mas que, por vezes, mergulhado em nuvens de burocracia, demorava para agir.
Mesmo diante de todas as dificuldades, as andorinhas não desistiram, amparadas pelas corujas defensoras que sempre estiveram ao seu lado, começaram a gritar com todas as forças: “Grande Olho! Veja o que está acontecendo! Precisamos que a justiça seja feita!”
Enquanto isso, as raposas continuavam a sussurrar entre si, tecendo tramas com os corvos e manipulando os outros animais da Fazenda. Alguns tentavam resistir, mas a maioria temia o poder que os corvos exerciam em segredo. “Não confie no Olho”, diziam eles. “Ele vê apenas o que lhe interessa.”
Apesar dos desafios, as corujas defensoras das andorinhas decidiram continuar lutando. “A verdade é a nossa arma”, declararam. “Enquanto continuarmos a gritar, o Olho será obrigado a agir.”
O Olho, finalmente, começou a se mover. Ele abriu seu brilho intenso, vasculhando cada canto da Fazenda das Promessas. Mas, enquanto isso, as raposas e os corvos conspiravam entre si e, rindo, repetiam: “O Olho pode parecer atento, mas nós o enganamos, nossos rastros estão bem escondidos”.
Mal sabiam eles que o Olho estava mais vigilante do que nunca, silencioso, estava registrando cada movimento. Ele já havia identificado os esconderijos e os cúmplices, e estava esperando apenas o momento certo para agir.
Enquanto isso, as andorinhas, embora cansadas, encorajadas pelas corujas defensoras que lhes acolheram desde o início, mantinham a esperança. “A verdade sempre prevalecerá”, declararam as corujas defensoras. “O Olho está vendo, mesmo que as sombras tentem esconder os atos das raposas, dos corvos e dos demais animais que deixaram-se corromper.”
E assim, o destino da Fazenda das Promessas permanece em suspenso. Os pássaros esperam por justiça, as raposa se os corvos, iludidos, escondem seus rastros, acreditando que poderiam enganar o Olho que Tudo Vê.
– Moral da História
A justiça é como um farol em meio à escuridão, mas para iluminar o caminho, é preciso coragem e persistência de quem clama por ela porque, mesmo sob os olhos vigilantes, o silêncio é o maior aliado da corrupção. Além disso, a corrupção pode prosperar nas sombras, mas a verdade sempre encontra um caminho para iluminar. A justiça, ainda que tardia, chega para aqueles que perseveram.


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