maio
2026
JP e OAB: o tempo que nos une
Por Daniel Blume, secretário-geral da OAB MA
Há memórias que não pertencem apenas a quem as viveu: pertencem também ao lugar, às pessoas e ao tempo que juntos atravessamos.
Ao celebrar os 75 anos do Jornal Pequeno, revisito parte da história do Maranhão e, inevitavelmente, da própria Ordem dos Advogados do Brasil em nosso Estado.
Falo não apenas como advogado e secretário-geral da OAB Maranhão, mas como alguém que cresceu vendo o Jornal Pequeno circular pelas mãos do povo nas bancas, nos ônibus, nas conversas de esquina.
O “Órgão das Multidões” sempre esteve ali: firme, inquieto, resistente, como certas instituições que o tempo não consegue dobrar. E foram muitas as tempestades.
Fundado em 1951 por Ribamar Bogéa, o JP nasceu com a ousadia dos que não temem contrariar interesses hegemônicos, Enquanto parte da imprensa se acomodava à conveniência dos poderosos, o Jornal Pequeno escolheu o caminho mais dificil: o da crítica, da denúncia e da defesa das causas populares. Pagou por isso. Enfrentou censura e perseguições. Mas não recuou.
Essa obstinação ética -que prefiro chamar de coragem ajudou a moldar gerações e, de certo modo, a própria cultura jurídica maranhense, pois onde há injustiça denunciada, há o Direito convocado. Onde há voz que resiste, há cidadania que se fortalece. Onde há imprensa livre, a democracia respira.
É impossível não traçar um paralelo com a trajetória da OAB Maranhão, que hoje soma 94 anos de existência.
A Ordem nasceu antes, é verdade, mas compartilha com o Jornal Pequeno a mesma vocação histórica: a defesa da liberdade, da justiça e da dignidade. humana. Somos instituições siamesas na luta.
Enquanto o JP enfrentava os anos de chumbo com manchetes que desafiavam o silêncio imposto, a OAB ergula-se como trincheira jurídica contra os abusos daquele tempo.
Enquanto o jornal denunciava violações de direitos, a Ordem buscava assegurar que esses direitos não fossem apenas promessas constitucionais.
Caminhamos lado a lado: a pena e o processo, a manchete e a sustentação oral instrumentos distintos a serviço da mesma causa.
Ao olhar para esses 75 anos do Jornal Pequeno, vejo mais do que a história de um veículo de comunicação. Vejo um capítulo essencial da cidadania maranhense. Vejo um jornal que atravessou décadas sem perder a alma; que ingressou no mundo digital sem perder o cheiro da tinta nem o compromisso com o povo.
E, ao pensar nos 94 anos da OAB Maranhão, percebo que também nós seguimos aprendendo que a democracia não é um estado permanente, mas um exercício diário.
A verdade não é conforto: é responsabilidade. E o Direito, como a boa imprensa, só permanece vivo quando mantém vínculo com a realidade humana.
Celebrar o Jornal Pequeno é, portanto, celebrar o Maranhão. É homenagear a liberdade de expressão, a resistência e a coragem de Ribamar Bogéa e de todos os que mantiveram vivo esse compromisso ao longo das décadas. Há instituições que envelhecem; outras atravessam o tempo.
O JP pertence a essa segunda espécie: a das casas que não se sustentam apenas por paredes ou manchetes, mas por convicções. E talvez por isso continue necessário-porque, em tempos de ruido e velocidade, ainda preserva algo cada vez mais raro: independência com memória.
Daqui, do meu lugar na Ordem, deixo não apenas o reconhecimento institucional, mas também a gratidão pessoal, porque um Maranhão com o Jornal Pequeno é um Maranhão mais informado, mais irreverente. e mais livre. E isso faz toda a diferença para quem acredita que o Direito só se realiza plenamente quando encontra eco na sociedade.
Que venham muitos anos mais. O JP segue firme. A OAB segue vigilante. E o Maranhão prossegue maior por abrigar duas instituições que fizeram do tempo não um desgaste, mas uma prova de permanência e persistência.


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