set
2026
PF encontra mensagens de esposa de desembargador maranhense que aponta contrato de R$ 427 milhões para destravar precatórios de R$ 8,5 bi
O contrato em questão foi celebrado com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, que tem como sócia a advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).

Um contrato de advocacia no valor potencial de R$ 427 milhões, localizado em arquivos apreendidos pela Polícia Federal no âmbito do caso Banco Master, passou a integrar o conjunto de informações analisadas pelo Supremo Tribunal Federal. O documento envolve processos relacionados a precatórios que poderiam resultar no recebimento de até R$ 8,5 bilhões por interesses ligados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. As informações foram divulgadas pelo portal Metrópoles nesta segunda-feira (21).
O material foi extraído do conteúdo apreendido no celular de Vorcaro e posteriormente encaminhado pela Polícia Federal ao STF. Segundo a documentação, o contrato previa honorários correspondentes a 5% dos valores eventualmente recebidos em 12 processos judiciais relacionados a indenizações do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool. O Banco Master aparece nos documentos como credor ou cessionário dos créditos.
O escritório contratado é o Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, ligado à advogada Camilla Ramos, esposa do desembargador federal Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. O acordo estabelecia que os honorários seriam pagos somente em caso de êxito e autorizava o escritório a receber diretamente da União a parcela correspondente aos serviços previstos no contrato.
A conexão com o ministro Kassio Nunes Marques, do STF, aparece nas mensagens atribuídas a assessores de Vorcaro. Segundo a apuração publicada pelo Metrópoles, a expressão “Turma do KN” era utilizada para se referir ao desembargador Newton Ramos e à advogada Camilla Ramos. Nas conversas, “KN” é apontado como referência ao ministro Nunes Marques.
As mensagens também registram contatos relacionados a um julgamento envolvendo precatórios de empresas do setor sucroalcooleiro. Em uma das conversas, Camilla Ramos comemorou o voto de Nunes Marques e o classificou como favorável à tese discutida. O julgamento contou ainda com votos de Dias Toffoli e Edson Fachin no mesmo sentido, enquanto Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos.
Outro conjunto de mensagens trata de pedidos de hospedagem e outros serviços atribuídos ao grupo identificado como “Turma do KN”. Em uma das conversas, um assessor de Vorcaro informa que Newton Ramos havia solicitado uma reserva no Hotel Fasano, em São Paulo, para “KN”. Em seguida, uma assessora encaminha uma mensagem na qual afirma que o ministro Kassio Nunes Marques teria pedido uma tarifa promocional para uma diária. Vorcaro autorizou que a despesa fosse colocada em sua conta, segundo os registros divulgados.
As mensagens também fazem referência a outros benefícios e estruturas de hospedagem e entretenimento, incluindo eventos, camarotes e viagens. Reportagens anteriores baseadas no mesmo material da Polícia Federal apontaram que Vorcaro teria organizado uma hospedagem de luxo no Rio de Janeiro durante o Carnaval de 2025 para uma pessoa identificada nas conversas como “KN”. A PF apontou Kassio Nunes Marques como a possível referência, embora a identificação decorra do conteúdo das mensagens.
O caso ganhou novo peso dentro do STF após o próprio Nunes Marques ter se declarado impedido de participar de um julgamento envolvendo o ministro Alexandre de Moraes. A decisão ocorreu em meio à divulgação de mensagens relacionadas a Vorcaro e a pessoas próximas ao ministro.
Em manifestação divulgada anteriormente, Nunes Marques negou ter votado em favor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master e afirmou que nunca trocou mensagens com o ex-banqueiro nem autorizou terceiros a falar em seu nome. Sobre o julgamento dos precatórios, o ministro declarou que inicialmente havia registrado impedimento por ter participado do caso quando atuava no TRF-1, mas posteriormente concluiu que tecnicamente não havia impedimento, por se tratar de uma tese de alcance geral.
A defesa do desembargador Newton Ramos também negou qualquer relação entre sua atuação jurisdicional e os negócios de Vorcaro. Em declaração reproduzida na reportagem original, Ramos afirmou que sua esposa presta serviços jurídicos ao Banco Master e que existia uma relação pessoal anterior com o ex-banqueiro, mas sustentou que nunca julgou causa de interesse da instituição financeira.
O contrato de R$ 427 milhões, portanto, passa a fazer parte de um conjunto mais amplo de documentos e mensagens apreendidos pela Polícia Federal que vêm sendo examinados no caso Master. A existência do contrato e das conversas não comprova, por si só, pagamento de honorários, favorecimento judicial ou prática ilícita por parte do ministro. As circunstâncias e eventuais responsabilidades dependem da análise integral dos documentos e das investigações em andamento.


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