18
ago
2021

Relatos de Manoel da Conceição…

Pelo Jornalista Domingos Costa

-Do site Conexão Brasília Maranhão e Portal Vermelho 

Esta talvez seja a melhor síntese do homem que há mais de 50 anos resiste e luta contra o coronel mais longevo do Brasil contemporâneo, José Sarney. Testemunha de vários massacres de líderes camponeses no interior do Maranhão e, ele próprio, sobrevivente de inúmeras ações da polícia e de jagunços a serviço da oligarquia, Manoel é a prova viva do que acontece quando o povo não se submete ao cabresto daqueles que se julgam donos do Brasil.

O camponês presidia o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pindaré-Mirim, a 177 km da capital São Luís, quando os militares deram o golpe e ocuparam a sede daquele que foi o primeiro sindicato rural da história do Maranhão. Filho de evangélicos da Assembleia de Deus, Manoel foi preso e torturado pelos policias da ditadura. Baleado em 1968, quando o Maranhão era governado por José Sarney, que se tornaria presidente de Brasil (1985-1990), teve sua perna amputado por falta de tratamento.

Em entrevista em 2018 ao jornal Brasil de Fato, Manoel da Conceição contou sua relação com o ex-presidente.

“Sarney fez uma campanha com um discurso bonito em 1966 para governo do Maranhão. Eu acreditei nele e os camponeses em geral apoiaram sua candidatura, principalmente no tema da reforma agrária. Mas quando foi eleito, combateu com bastante violência as ações dos camponeses no Maranhão. Eu cortei todas as relações que eu tinha com Sarney há muito tempo. Ele nunca mais me procurou também”, disse.

A barbárie a que foi submetido nos anos 1970 foi tanta que até o papa Paulo VI chegou a intervir, pedindo sua imediata libertação. Sua história está contada no relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV). No documento, um relato de Manoel explica as torturas que sofreu.

“Levantaram meus braços com cordas amarradas ao teto, colocaram meu pênis e os testículos em cima da mesa e com uma sovela fina de agulhas de costurar pano deram mais de trinta furadas. Depois bateram um prego no meu pênis e o deixaram durante horas pregado na mesa”. Quando Manoel conseguiu a liberdade, fugiu para o exílio e foi recebido por Paulo Freire.

Com a Lei da Anistia, em 1979, Manoel casado e com uma filha, decidiu voltar ao Brasil, e se mudou para Recife. Segundo sua esposa, a assistente social Maria Denise Barbosa Leal, o sindicalista foi terceiro a assinar a ficha de filiação do Partido dos Trabalhadores (PT), criado em fevereiro de 1980. Chegou a concorrer a alguns cargos, mas não obteve sucesso nas urnas.

“No dia 13 de julho de 1968 o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Pindaré Mirim havia convocado uma reunião da categoria para receber a visita de um médico para tratar questões relacionadas à saúde dos associados e associadas. O Prefeito do município na época mandou informar que iria fazer uma visita ao sindicato neste mesmo dia. Por volta das 10 horas da manhã chegou um pessoal dizendo que queria falar com o presidente do sindicato. Quando eu apontei na porta fui recebido por tiro de fuzil que estraçalhou minha perna. A ação e os disparos foram efetuados pela polícia militar. Outros companheiros também foram atingidos por bala, mas felizmente não houve morte. Eu fui levado aprisionado e jogado na cadeia sem receber nenhum tratamento no ferimento, o que levou minha perna a gangrenar e ter que ser amputada.”

Em 2010, Manoel voltou as manchetes por, ao lado do então deputado federal Domingos Dutra e da ex-deputada federal Terezinha Fernandes, fazer greve de fome contra o apoio do PT à candidatura de Roseana Sarney (MDB) ao governo do Maranhão.

“Como que agora meus próprios companheiros de partido querem me obrigar a fazer a defesa dessas figuras que me torturaram e mataram meus mais fieis companheiros e companheiras. Vocês podem ter certeza que essa é a pior de todas as torturas que se pode impor a um homem. Uma tortura que parte dos próprios companheiros que ajudamos a fortalecer e projetar como nossos representantes no partido e na esfera de poder do Estado, na perspectiva de um projeto estratégico da classe trabalhadora. Estou falando do fundo de minha alma em honra à minha história e à de meus companheiros e companheiras que foram assassinadas pelas forças oligárquicas e de extrema direita neste país.”

Manoel se refere à tentativa de imposição, por parte de dirigentes nacionais do PT, da aliança local do partido com o PMDB de Rosena Sarney nas eleições estaduais, desprezando a decisão do PT-MA de se coligar com o PCdoB do então deputado federal Flávio Dino e o PSB.

Clique AQUI e confira a íntegra de outra entrevista realizada em São Paulo (24 de julho de 2006)

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